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Pandemia e a Angústia Circunstancial

Publicado originalmente em 22/04/2020. Texto do acervo do site, preservado nesta atualização de apresentação. A terminologia pode refletir a época da publicação.

Imagem do artigo Pandemia e a Angústia Circunstancial

O momento atual coloca a todos diante de uma situação de ameaça e impotência. A ameaça vem de fora, do ambiente e do contato com outras pessoas; a ameaça é real, ela existe por si só e, independente de que alguns possam negá-la ou justificá-la com teorias de grandes conspirações, as pessoas estão de fato adoecendo e morrendo. Esta constatação nos coloca diante de nossos medos, coloca nossas crenças em debate, mobiliza nossos valores e exige de todos uma resposta.

A pandemia está mobilizando nas pessoas a Angústia Circunstancial, que segundo a análise psicodramática é assim explicada: “são angústias oriundas do mundo externo e estão diretamente relacionadas às situações que ameaçam o indivíduo em sua vida cotidiana, estas  angustias são proporcionais às ameaças reais e são resolvidas com a mobilização e agilização da parte sadia do indivíduo”.

Os indivíduos têm motivações diversas em relação à vida e é em função destas motivações internas que o homem vai buscar soluções, as duas principais motivações do “Ser Humano” estão ligadas às suas Necessidades ou às suas Vontades. As questões relacionadas as necessidades estão ligadas a sobrevivência, tais como: moradia, alimentação, saúde, educação, trabalho, objetos de uso pessoal para si e para a sua família. Já as questões ligadas as vontades estão diretamente conectadas às questões de prazer, lazer, viagens, férias, status social, vaidades, acúmulo de bens, etc.

Assim, isto posto, podemos afirmar que os indivíduos agem na vida ou por necessidade ou por vontade, então, existem diferentes motivações de encarar uma situação como a que estamos vivendo no momento, a pandemia do Covid 19. A dificuldade aqui é que muitas vezes as pessoas confundem necessidades com vontades e vice versa, isto acarreta uma série de dificuldades na solução de problemas do dia a dia.

Segundo Vitor R S Dias, “Ao conseguir discernir entre as reais e as falsas necessidades, entre as reais e pretensas vontades, o individuo caminha para seu amadurecimento psicológico”.  Neste momento de pandemia, entendo que o nosso trabalho enquanto psicólogos é ajudar as pessoas a entenderem as suas verdadeiras necessidades e as suas verdadeiras vontades, ajudando na tomada de decisão em relação a sua conduta frente a pandemia. O atendimento psicológico neste momento precisa ser focado e direcionado no sentido de ajudar o indivíduo para a sua realidade e a partir dela, conseguir se posicionar utilizando a sua parte saudável.

Percebemos em nossos atendimentos, que muitos pacientes estão usando este tempo de afastamento social para rever as suas reais necessidades versus as suas vontades; questionando o que de fato é importante na sua vida. Este é um momento em que as pessoas estão sendo obrigadas a olhar para “si mesmas” e se deparam com dificuldade em decidir entre a necessidade e a vontade, desta forma pode-se “recrutar psicologicamente” a parte saudável da pessoa para uma tomada de decisões pautadas na realidade.

Observamos que algumas pessoas estão deslocando sua energia para comer em excesso, dormir em excesso, não tomar contato com a realidade, se afastando de ter informações relevantes em relação ao que está acontecendo no mundo externo; outros, já ficam 24 horas ligados nas notícias, só falam e respiram a pandemia em busca de encontrar uma solução mágica para  a situação, e outros buscam apoio na religião, etc.

Todos estamos sendo colocados em confronto com a angústia circunstancial que a pandemia está desencadeando, e a forma como cada um vai reagir é muito importante para o enfrentamento da situação. Neste momento consideramos importante que as pessoas possam encontrar um lugar de apoio e acolhimento, buscando um atendimento psicológico de curta duração, pontual e focado, com algumas poucas sessões para aliviar o estresse, e para compreensão de seus recursos internos no enfrentamento a pandemia.

Referência bibliográfica: Psicopatologia e Psicodinâmica na Análise Psicodramática, Victor R. C. S. Dias, Virginia de Araujo Silva, São Paulo: Ágora, 2016.

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